Muito já foi
dito sobre as palavras.
Há séculos que
os artesãos da palavra se dedicam a moldá-la fazendo arte ao agrupar e separar
palavras, como se fosse um balé, conferindo diferentes sentidos às mesmas
palavras apenas por tê-las agrupado de modo diferente.
Muitas áreas
do conhecimento têm na palavra seu objeto de estudo, como a etimologia, a
gramática, a linguística, a semântica...
Jose Luiz Fiorin,
professor e linguista brasileiro, reconhece a palavra como um dos signos mais
importantes de nossa comunicação, sendo que os signos são “uma forma de
apreender a realidade”[1].
O mais interessante, é que ele afirma que “para os homens a realidade só tem
existência quando é nomeada”[2].
Dá o que pensar!
Eu gosto das
palavras! Gosto da linguagem, da comunicação... e gosto especialmente da “língua
de Luiz de Camões”, como Caetano chama a língua portuguesa. Eu me divirto com
elas, como elas se prestam a jogos, como elas obedecem a regras e como é
divertido transgredir essas regras...
Gosto das
ciências que as estudam. Mas, sinceramente, gosto do inestudável que há nas
palavras, do não-científico, do volátil, do... indizível! Como no poema do
Gilberto Gil: “Uma lata existe para conter algo, mas quando o poeta diz lata,
pode estar querendo dizer o incontível”. Que ciência estudaria a “incontenibilidade”
da palavra?? Amo neologismos! E palavras novas, e palavras antigas, daquelas
que moram no fundo do dicionário, como a que meu professor Paulo H. Tavares usou
um dia destes: esconso! Uh! Quem usa uma palavra dessas professor?? Eu sugeri
que ele usasse outra no lugar, mas, no fundo... ah, no fundo eu me diverti com
essa! Guardei-a pra mim!
Quando leio um
texto bom, sinto que as palavras são vivas! Fico imaginando que quando um
escritor começa seu trabalho, elas ficam nervosas, disputando pra ver quais
delas serão escolhidas pelo mestre! “Ei,
estou aqui! Sou a melhor que você poderia usar nesta frase!”. Só o escritor
as conhece. Como diz um escritor e jornalista da “terrinha”, “As palavras
possuem cores secretas, odores sutis, densidades ignoradas”.[3]
Ela também tem
seus poderes, a variar de acordo com quem as pronuncia. Quando um grande líder diz
“Eu tive um sonho”, é capaz de motivar grandes multidões! Mas se eu digo “eu
tive um sonho”, meu marido logo responde: “É porque você comeu muito antes de
dormir”. Mas se o locutor for o próprio Deus, um simples “faça-se a luz”[4]
basta para que a luz passe a existir! Ele diz, e tudo acontece!
O Veríssimo
tem um jeito muito especial de pensar sobre elas. É como se ele desse forma,
peso, volume e movimento para as palavras. Pra ele, “borboleta” é uma palavra
que não voa! Ao contrário de “sílfide”, que sai voando da boca logo que é
pronunciada.[5]
Ótimo! Mas discordo do Marcelo Fromer, que acha que palavras são iguais, sendo
diferentes[6],
Pra mim, são sempre diferentes, mesmo quando são iguais!
Há dias estou
pensando na palavra saudade...
Saudade é um
sentimento semelhante a um vazio. Um vazio deixado por algo que estava ali e
não está mais. Uma ausência. Mas não uma ausência qualquer, como um garoto do
segundo ano que não está presente na classe! Uma ausência palpável, visível,
perceptível, mensurável (ou imensurável, dependendo do tamanho do vazio).
Saudade é uma palavra que tem cheiro – de pão assando, de mato molhado, de
chuva de verão, de criança suada... – tem gosto – de bala de caramelo, de churrasco
feito pelo pai no quintal, de bolo de chocolate, de lanche de escola... – tem som – de risada de meninos, de
carrinhos explodindo, de canção de ninar, de cachorro latindo no quintal... – e
tem nome...
Saudade é uma
palavra que se sente...
Saudade dói.
[1]
FIORIN, José Luiz
(org.). Introdução à linguística. 6. ed. rev. e atual. São Paulo: Contexto,
2010
[2] Idem
[3] BASTOS,
Batista. Crônica das Palavras. Disponível em <http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=1149159 >
[4] Bíblia
Sagrada. Gênesis 1:3
[5] VERÍSSIMO,
Fernando. Trilhão. Disponível em <https://jotapeah.wordpress.com/tag/luis-fernando-verissimo/>