terça-feira, 31 de março de 2015

PALAVRAS SÃO... PALAVRAS!



Muito já foi dito sobre as palavras.

Há séculos que os artesãos da palavra se dedicam a moldá-la fazendo arte ao agrupar e separar palavras, como se fosse um balé, conferindo diferentes sentidos às mesmas palavras apenas por tê-las agrupado de modo diferente.

Muitas áreas do conhecimento têm na palavra seu objeto de estudo, como a etimologia, a gramática, a linguística, a semântica...

Jose Luiz Fiorin, professor e linguista brasileiro, reconhece a palavra como um dos signos mais importantes de nossa comunicação, sendo que os signos são “uma forma de apreender a realidade”[1]. O mais interessante, é que ele afirma que “para os homens a realidade só tem existência quando é nomeada”[2]. Dá o que pensar!

Eu gosto das palavras! Gosto da linguagem, da comunicação... e gosto especialmente da “língua de Luiz de Camões”, como Caetano chama a língua portuguesa. Eu me divirto com elas, como elas se prestam a jogos, como elas obedecem a regras e como é divertido transgredir essas regras...

Gosto das ciências que as estudam. Mas, sinceramente, gosto do inestudável que há nas palavras, do não-científico, do volátil, do... indizível! Como no poema do Gilberto Gil: “Uma lata existe para conter algo, mas quando o poeta diz lata, pode estar querendo dizer o incontível”. Que ciência estudaria a “incontenibilidade” da palavra?? Amo neologismos! E palavras novas, e palavras antigas, daquelas que moram no fundo do dicionário, como a que meu professor Paulo H. Tavares usou um dia destes: esconso! Uh! Quem usa uma palavra dessas professor?? Eu sugeri que ele usasse outra no lugar, mas, no fundo... ah, no fundo eu me diverti com essa! Guardei-a pra mim!

Quando leio um texto bom, sinto que as palavras são vivas! Fico imaginando que quando um escritor começa seu trabalho, elas ficam nervosas, disputando pra ver quais delas serão escolhidas pelo mestre! “Ei, estou aqui! Sou a melhor que você poderia usar nesta frase!”. Só o escritor as conhece. Como diz um escritor e jornalista da “terrinha”, “As palavras possuem cores secretas, odores sutis, densidades ignoradas”.[3]

Ela também tem seus poderes, a variar de acordo com quem as pronuncia. Quando um grande líder diz “Eu tive um sonho”, é capaz de motivar grandes multidões! Mas se eu digo “eu tive um sonho”, meu marido logo responde: “É porque você comeu muito antes de dormir”. Mas se o locutor for o próprio Deus, um simples “faça-se a luz”[4] basta para que a luz passe a existir! Ele diz, e tudo acontece!

O Veríssimo tem um jeito muito especial de pensar sobre elas. É como se ele desse forma, peso, volume e movimento para as palavras. Pra ele, “borboleta” é uma palavra que não voa! Ao contrário de “sílfide”, que sai voando da boca logo que é pronunciada.[5] Ótimo! Mas discordo do Marcelo Fromer, que acha que palavras são iguais, sendo diferentes[6], Pra mim, são sempre diferentes, mesmo quando são iguais!

Há dias estou pensando na palavra saudade...

Saudade é um sentimento semelhante a um vazio. Um vazio deixado por algo que estava ali e não está mais. Uma ausência. Mas não uma ausência qualquer, como um garoto do segundo ano que não está presente na classe! Uma ausência palpável, visível, perceptível, mensurável (ou imensurável, dependendo do tamanho do vazio). Saudade é uma palavra que tem cheiro – de pão assando, de mato molhado, de chuva de verão, de criança suada... – tem gosto – de bala de caramelo, de churrasco feito pelo pai no quintal, de bolo de chocolate, de lanche de escola...  – tem som – de risada de meninos, de carrinhos explodindo, de canção de ninar, de cachorro latindo no quintal... – e tem nome...

Saudade é uma palavra que se sente...

Saudade dói.









[1] FIORIN, José Luiz (org.). Introdução à linguística. 6. ed. rev. e atual. São Paulo: Contexto, 2010

[2] Idem


[3]  BASTOS, Batista. Crônica das Palavras. Disponível em  <http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=1149159 >

[4] Bíblia Sagrada. Gênesis 1:3

[5] VERÍSSIMO, Fernando. Trilhão. Disponível em  <https://jotapeah.wordpress.com/tag/luis-fernando-verissimo/>


[6] Palavras. Disponível em <http://www.radio.uol.com.br/#/letras-e-musicas/titas/palavras/875992>

segunda-feira, 30 de março de 2015

INFÂNCIA


Areia
Maré cheia
Conchinha
Marola
Onda
Espuma
Quebra-mar
Orla
Maré vazante
Maré de ressaca
Gosto de sal
Gosto de sol
Pele salgada
Baía
Enseada
Píer
Marina
Barco
Remo
Prancha
Vela
Vento de preamar
Sotavento
Barlavento
...
Foi assim
Salpicada de maresia
A minha infância

quarta-feira, 25 de março de 2015

REALEJO GOSPEL


Quem tem menos de trinta anos talvez tenha dificuldade em lembrar o que é um realejo. Na verdade, é provável que nem mesmo saiba do que se trata.
Não é meu caso - eu vi alguns ao vivo! E ganhei meu “bilhetinho da sorte”, claro.
A memória mais antiga que possuo sobre esse artefato folclórico - manejado por uma figura igualmente folclórica – é da minha infância. Acho que estava com uns 5 ou 6 anos e passeava com meus avós e minhas tias na Biquinha, em São Vicente (atire o primeiro saquinho de milho quem morou nas redondezas e nunca passou uma tarde de domingo jogando milho e amendoim para os pombos na Biquinha!).
Lá tinha um realejo. Tenho certeza.
Era a trilha sonora do passeio, com aquelas notas meio desafinadas saindo de uma caixa de som surreal. O som era produzido por um misterioso mecanismo ativado por uma manivela (!) localizada ao lado da caixa. Sim, isso mesmo: uma m-a-n-i-v-e-l-a. Ao ser girada pelo tocador de realejo, ela produzia a música. Esta caixa de som ficava apoiada sobre uma coluna de madeira, semelhante a uma vara. E sobre a caixa de som, uma gaiola – geralmente amarela, mas não sei porque – que guardava um papagaio/periquito/maritaca verde!
O bichinho era a estrela do show! Mansinho, deixava as crianças fazerem cafuné e depois, a um comando do seu dono, tirava de uma gavetinha um papelzinho que entregava em nossa mão. A hipnose já estava completa neste momento. Qualquer criança já estaria sem controle sobre o maxilar inferior, a esta altura solto, e com os olhos lacrimejando de tão arregalados.
Não me lembro o que estava escrito no meu papelzinho – é querer demais, heim? - Mas o realejo era isso mesmo: uma performance meio circense para enfeitar o ato de “ler a sorte”.
Lembro de ter encontrado outro em uma praça no centro de São Paulo, na primeira vez em que meu pai me levou lá. Para uma criança, uma viagem de Santos até são Paulo, é muuuuito longa. Equivale a ir ao outro lado do mundo! Mas no outro lado do mundo também tinha praça antiga, pombos e realejo... Pra que vir tão longe?? Vai ver o louro tem um recado especial pra mim desta vez... Talvez ele diga com quantos anos eu vou me casar!!!
Já tinha uns 10 anos quando meus pais me levaram pra conhecer o Rio de Janeiro. Tenho certeza de que Ipanema inteira olhou pra mim quando pisei suas areias vestindo um biquíni dourado – última moda das cariocas!
Pão de açúcar, Lagoa Rodrigo de Freitas... Tudo tão lindo... E a estátua do Cristo – ninguém acredita em criança, mesmo – até deu uma piscadela quando me viu lá em cima. Acho que ele queria me dizer alguma coisa, mas o que seria? Ah, claro! O moço do realejo logo ali! Vem, mãe. O periquito tem um recado do Cristo pra me passar!
Eu era uma criança normal. Tão criativa e imaginativa quanto qualquer outra. E aquele realejo era um “motor” bem adequado para a imaginação infantil...
A última vez que vi um foi quando já estava noiva. Fomos meu noivo, eu e os pais dele almoçar na cidade de Embu das Artes, onde minha futura sogra disse que encontraríamos móveis lindos para nossa casa. De fato, lá adquirimos alguns dos moveis de nosso “ninho”. Almoçamos. Nunca vou me esquecer do menu: filet grelhado acompanhado de sete (!) purês – batata, mandioca, mandioquinha, cará, inhame, batata-doce e beterraba. (Não posso esquecer de avisar meus filhos que dá pra variar o cardápio quando eu ficar velhinha e sem os dentes!)
A cidade é pitoresca, com um lindo casario histórico, ruas antigas forradas de vendedores e artistas expondo seus artigos, formando um mosaico coloridíssimo. E adivinha quem estava lá, fazendo a trilha sonora? Ele mesmo, o tocador de realejo!
“E os pombinhos, não querem saber sua sorte?” Não resistimos...
Desse eu lembro – até porque ainda tenho o papelzinho guardado na caixa de “recuerdos”. Estava escrito: “Serás feliz ao lado de teu amado, que nunca te deixará. Terás quatro lindos filhinhos”. O bichinho acertou nas palavras feliz, amado, terás, lindos e filhinhos.  Mas errou na quatro. Porque foram só três !!  E até que foi uma boa média de acertos! Bem maior que a maioria dos adivinhadores de plantão nas viradas de ano.
E assim se forma a cultura de que o futuro pode (e deve) ser adivinhado. Bola de cristal, videntes, quiromancia, búzios, cartas de tarô, estrelas, borra de café no fundo da xícara, palpite da vizinha... Vou encontrar meu grande amor? Aquele emprego será meu? Minha viagem será bem sucedida? Terei sucesso nesta carreira?... e por aí vai.
“O futuro a Deus pertence”. Vamos combinar que, pelo menos dessa vez, a sabedoria popular tem algo de sábio (raridade).
A ideia se torna um problema quando o indivíduo cresce, mas não amadurece. Ele ainda quer receber um recado do cristo, ou de quem quer que seja. As pessoas precisam de uma orientação segura, vinda de alguém ou algo de reputação inquestionável, a fim de poderem tomar decisões (importantes ou não). E é aí que fucinho de porco vira tomada... e Bíblia vira realejo!
Páginas abertas ao acaso após proferir um pedido... :-P

Pede pro periquito abrir, então! Fica mais “autêntico”!!