REALEJO GOSPEL
Quem
tem menos de trinta anos talvez tenha dificuldade em lembrar o que é um
realejo. Na verdade, é provável que nem mesmo saiba do que se trata.
Não
é meu caso - eu vi alguns ao vivo! E
ganhei meu “bilhetinho da sorte”, claro.
A
memória mais antiga que possuo sobre esse artefato folclórico - manejado por
uma figura igualmente folclórica – é da minha infância. Acho que estava com uns
5 ou 6 anos e passeava com meus avós e minhas tias na Biquinha, em São Vicente
(atire o primeiro saquinho de milho quem morou nas redondezas e nunca passou
uma tarde de domingo jogando milho e amendoim para os pombos na Biquinha!).
Lá
tinha um realejo. Tenho certeza.
Era
a trilha sonora do passeio, com aquelas notas meio desafinadas saindo de uma
caixa de som surreal. O som era produzido por um misterioso mecanismo ativado
por uma manivela (!) localizada ao lado da caixa. Sim, isso mesmo: uma
m-a-n-i-v-e-l-a. Ao ser girada pelo tocador de realejo, ela produzia a música.
Esta caixa de som ficava apoiada sobre uma coluna de madeira, semelhante a uma
vara. E sobre a caixa de som, uma gaiola – geralmente amarela, mas não sei porque
– que guardava um papagaio/periquito/maritaca verde!
O
bichinho era a estrela do show! Mansinho, deixava as crianças fazerem cafuné e
depois, a um comando do seu dono, tirava de uma gavetinha um papelzinho que
entregava em nossa mão. A hipnose já estava completa neste momento. Qualquer
criança já estaria sem controle sobre o maxilar inferior, a esta altura solto,
e com os olhos lacrimejando de tão arregalados.
Não
me lembro o que estava escrito no meu papelzinho – é querer demais, heim? - Mas
o realejo era isso mesmo: uma performance meio circense para enfeitar o ato de
“ler a sorte”.
Lembro
de ter encontrado outro em uma praça no centro de São Paulo, na primeira vez em
que meu pai me levou lá. Para uma criança, uma viagem de Santos até são Paulo,
é muuuuito longa. Equivale a ir ao outro lado do mundo! Mas no outro lado do
mundo também tinha praça antiga, pombos e realejo... Pra que vir tão longe??
Vai ver o louro tem um recado especial pra mim desta vez... Talvez ele diga com
quantos anos eu vou me casar!!!
Já
tinha uns 10 anos quando meus pais me levaram pra conhecer o Rio de Janeiro.
Tenho certeza de que Ipanema inteira olhou pra mim quando pisei suas areias
vestindo um biquíni dourado – última moda das cariocas!
Pão
de açúcar, Lagoa Rodrigo de Freitas... Tudo tão lindo... E a estátua do Cristo
– ninguém acredita em criança, mesmo – até deu uma piscadela quando me viu lá
em cima. Acho que ele queria me dizer alguma coisa, mas o que seria? Ah, claro!
O moço do realejo logo ali! Vem, mãe. O periquito tem um recado do Cristo pra
me passar!
Eu
era uma criança normal. Tão criativa e imaginativa quanto qualquer outra. E
aquele realejo era um “motor” bem adequado para a imaginação infantil...
A
última vez que vi um foi quando já estava noiva. Fomos meu noivo, eu e os pais
dele almoçar na cidade de Embu das Artes, onde minha futura sogra disse que
encontraríamos móveis lindos para nossa casa. De fato, lá adquirimos alguns dos
moveis de nosso “ninho”. Almoçamos. Nunca vou me esquecer do menu: filet
grelhado acompanhado de sete (!) purês – batata, mandioca, mandioquinha, cará,
inhame, batata-doce e beterraba. (Não posso esquecer de avisar meus filhos que
dá pra variar o cardápio quando eu ficar velhinha e sem os dentes!)
A
cidade é pitoresca, com um lindo casario histórico, ruas antigas forradas de
vendedores e artistas expondo seus artigos, formando um mosaico coloridíssimo.
E adivinha quem estava lá, fazendo a trilha sonora? Ele mesmo, o tocador de
realejo!
“E
os pombinhos, não querem saber sua sorte?” Não resistimos...
Desse
eu lembro – até porque ainda tenho o papelzinho guardado na caixa de
“recuerdos”. Estava escrito: “Serás feliz ao lado de teu amado, que nunca te
deixará. Terás quatro lindos filhinhos”. O bichinho acertou nas palavras feliz, amado, terás, lindos e filhinhos. Mas errou na quatro. Porque foram só três
!! E até que foi uma boa média de
acertos! Bem maior que a maioria dos adivinhadores de plantão nas viradas de
ano.
E
assim se forma a cultura de que o futuro pode (e deve) ser adivinhado. Bola de
cristal, videntes, quiromancia, búzios, cartas de tarô, estrelas, borra de café
no fundo da xícara, palpite da vizinha... Vou encontrar meu grande amor? Aquele
emprego será meu? Minha viagem será bem sucedida? Terei sucesso nesta
carreira?... e por aí vai.
“O
futuro a Deus pertence”. Vamos combinar que, pelo menos dessa vez, a sabedoria
popular tem algo de sábio (raridade).
A
ideia se torna um problema quando o indivíduo cresce, mas não amadurece. Ele
ainda quer receber um recado do cristo, ou de quem quer que seja. As pessoas
precisam de uma orientação segura, vinda de alguém ou algo de reputação
inquestionável, a fim de poderem tomar decisões (importantes ou não). E é aí
que fucinho de porco vira tomada... e Bíblia vira realejo!
Páginas
abertas ao acaso após proferir um pedido... :-P
Pede
pro periquito abrir, então! Fica mais “autêntico”!!

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